A inteligência artificial deixou de ser novidade e virou ferramenta de trabalho no dia a dia da produção audiovisual, da música, da publicidade e do mercado de influência. Ela ajuda a organizar ideias, editar conteúdos, montar referências visuais e reduzir custos de produção. O avanço, no entanto, também acende um alerta entre artistas que temem ver a tecnologia deixar de ser suporte e passar a ocupar o espaço de quem cria.
Maria Rita e Hollywood dão dimensão global ao debate
A discussão ganhou força no Brasil depois que a cantora Maria Rita criticou publicamente o uso indiscriminado de IA na música. O tema também já é pauta em Hollywood, onde atores e profissionais do audiovisual discutem réplicas digitais, personagens artificiais e performances geradas por tecnologia. Não por acaso, o sindicato norte-americano SAG-AFTRA ampliou, em seu acordo de 2026, as proteções relacionadas a réplicas digitais e performances sintéticas - um sinal de que o setor busca regras antes que a tecnologia avance mais rápido do que os contratos. sapphirebet cassino
Entre atores e músicos brasileiros, o limite é o processo criativo
Entre artistas independentes brasileiros, a rejeição não é automática. O ator e apresentador Luís Augusto Brito vê utilidade da IA na pesquisa de personagens, na análise de roteiros e em etapas técnicas, mas defende que a interpretação continua sendo território exclusivo do ator. Já a cantora Mafé Peccin usa a ferramenta apenas na parte estratégica - planejamento, organização e divulgação -, mantendo composição e arranjos fora do alcance da IA. Ela reconhece o potencial de democratizar o acesso a recursos caros, como a gravação de instrumentos específicos, mas questiona quem lucra quando uma faixa criada quase inteiramente por IA atinge milhões de reproduções.
Malu Rodrigues segue linha semelhante, defendendo que composição e arranjo dependem de um processo emocional que não deveria ser automatizado. Pedro Bustamante usa IA em comunicação e estratégia, mas garante que a música permanece autoral. Bea Duarte adota a posição mais crítica do grupo e afirma que a tecnologia não participa de nenhuma etapa de seu trabalho, questionando inclusive a ideia de que ela seria solução para artistas de orçamento reduzido.
Produção audiovisual e mercado de influência também recalibram o uso da tecnologia
No audiovisual, Gabriel Nascimento, da Novelo Produções, vê ganhos reais de produtividade em brainstorming, referências e edição, mas resume o risco: quem trata IA como atalho perde qualidade, quem trata como aceleradora ganha competitividade. No mercado de influência, Isabela Soller, do Grupo Soller, observa que marcas já recorrem à IA para localizar criadores e desenhar estratégias, mas reforça que dados não substituem autenticidade - pessoas ainda se conectam com pessoas.
Ferramenta, não substituta
O consenso entre os profissionais ouvidos não é sobre se a IA fará parte do mercado criativo - ela já faz. A questão em aberto é até onde vai seu papel. Como resume Mafé Peccin, a IA deve ser tratada como um amigo dando uma opinião: quem começa a ideia continua sendo o artista.