Há mais de três décadas percorrendo o circuito profissional de tênis, o sueco Thomas Hogstedt construiu uma das carreiras de treinador mais respeitadas da história do esporte. De campeão juvenil do US Open em 1981 a técnico de vencedores de Grand Slam e ex-números 1 do mundo, sua trajetória atravessou gerações e deixou marcas profundas tanto no WTA Tour quanto no ATP Tour.
Hogstedt emergiu durante a era de ouro do tênis sueco, período em que nomes como Björn Borg, Mats Wilander e Stefan Edberg dominavam as quadras - adversários que ele próprio chegou a derrotar durante sua carreira como jogador, quando alcançou o ranking de número 38 do mundo. Ao pendurar a raquete em 1995, a transição para o banco foi quase inevitável. "Foi algo natural", disse Hogstedt. "Nos últimos anos como jogador, quando meu ranking caiu, vi uma nova geração batendo a bola com mais força. Percebi que meu tempo estava acabando, então fui para o treinamento." Para quem aprecia a complexidade tática do tênis de alto nível, é um pouco como jogar 9 Circles of Hell: cada fase exige adaptação, leitura de cenário e decisões sob pressão.
Das quadras suecas ao palco mundial
Os primeiros anos de Hogstedt como treinador foram marcados pela mesma paixão que norteou sua carreira como atleta: o desenvolvimento do tênis sueco. Ele acompanhou Magnus Norman durante a campanha histórica de Roland Garros, quando Norman derrotou o então número 1 do mundo e subiu ao segundo lugar no ranking global. Simultaneamente, Hogstedt trabalhava com jovens talentos como Joachim 'PimPim' Johansson, equilibrando o desenvolvimento de júniores com as exigências do tênis profissional adulto.
À medida que a geração de Robin Söderling e Johansson chegava ao seu limite, a reputação de Hogstedt crescia além das fronteiras escandinavas. Seu trabalho com Nicolas Kiefer, ex-número 4 do mundo, e Tommy Haas, ex-número 2, consolidou sua posição entre os principais treinadores do circuito masculino e abriu as portas para uma carreira igualmente vitoriosa no WTA Tour. Nas décadas seguintes, ele guiaria Caroline Wozniacki, Li Na, Maria Sharapova e Madison Keys - todas campeãs de Grand Slam. Atualmente, trabalha com a francesa Diane Parry.
A filosofia que transformou campeãs
A metodologia de Hogstedt nunca se resumiu a ajustes técnicos. Ele sempre buscou jogadoras dispostas a abraçar a disciplina, a consistência e a busca incessante pela melhora. "Sempre gostei de jogadoras prontas para trabalhar duro", afirmou. "Maria, Li Na e Caroline são algumas das atletas que mais trabalharam em toda a história do tênis feminino. Essa mentalidade combina comigo." Sharapova talvez seja o exemplo mais acabado dessa filosofia: após uma cirurgia no ombro, Hogstedt a transformou em campeã de Roland Garros e a ajudou a completar o Career Grand Slam - conquista construída sobre preparação meticulosa e rotinas diárias de alta exigência.
Esse padrão de excelência extrapolava o treino técnico. Hogstedt incentivava suas atletas a chegar às quadras antes da movimentação do dia, garantindo ambiente e concentração ideais. "Você tem uma escolha", explicou. "Prefere dormir mais e treinar das 11h ao meio-dia, sendo a quarta da fila na quadra? Ou acorda cedo, joga das 8h às 9h30 e tem a quadra só para você? É aí que você vê os jogadores com quem trabalhei. Eles continuaram treinando às 8h porque, se você quer jogar nos estádios, tem que fazer isso."
Trabalho em equipe e capacidade de evolução constante
Outro traço distintivo de Hogstedt foi sua habilidade de construir ambientes colaborativos. Trabalhar ao lado de figuras parentais influentes - como os pais de Sharapova e Wozniacki - exigiu comunicação, humildade e confiança mútua. "Passei muitas horas com os pais de Maria e Caroline discutindo objetivos e áreas de melhora. A chave é sempre ter uma única voz chegando até a jogadora. Às vezes você precisa dar um passo atrás e trabalhar com a equipe", disse. Essa cultura coletiva gerou vínculos que iam além do profissional: Jonas Bjorkman, segundo o próprio treinador, "cuidava muito mais de mim do que de si mesmo".
Hogstedt também soube manter sua relevância ao longo das décadas porque nunca parou de aprender. No auge de seu trabalho no circuito feminino, ele combinava o acompanhamento de atletas da WTA e do ATP simultaneamente, apostando na troca de experiências entre os dois universos. Hoje, o trabalho com Diane Parry - descrita por ele como uma "mão única" com "toque enorme" - reacendeu seu entusiasmo. A preparação detalhada segue sendo uma de suas maiores forças: cada sessão de treino é desenhada a partir das características do próximo adversário, com vídeos enviados antecipadamente às jogadoras para que cheguem à quadra com confiança e plano tático claro.
Para Hogstedt, o WTA Tour nunca foi tão forte. Ele acredita que lendas como Sharapova, Serena Williams e Steffi Graf competiriam no mais alto nível hoje, mas também se entusiasma com a nova geração, em especial Coco Gauff. E encontra ecos da profissionalidade de Sharapova na atual número 1 do mundo, Aryna Sabalenka. "Sabalenka me lembra muito a Maria", afirmou. "Sempre achei que tínhamos a melhor equipe. Hoje você vê tantas equipes funcionando muito bem, e acho que Sabalenka levou isso a outro nível." Aos mais de 60 anos, Hogstedt resume sua relação com o tênis de forma direta: "Não acho que você fica velho demais para isso." Seu legado, afinal, não se mede apenas em troféus - mas nas culturas de equipe que construiu e nas gerações de campeões que ajudou a moldar.